Para o desenvolvimento social de uma democracia não se pode negligenciar a importância de extirpar o ensino religioso das escolas. Entretanto, no Brasil, uma república que se diz laica, ainda tem prevalecido, infelizmente, o obscurantismo interesseiro das igrejas. A discussão deve contemplar necessariamente as dimensões do público e do privado. A religião é do domínio privado: você pode ter a fé que lhe apetece e ninguém pode censurá-lo por isso, nem lhe exigir que você faça o impossível que é provar que seu deus realmente existe. A escola é pública, diz respeito ao universal, como a ciência: tudo o que você defende deve ter validade para todos, por isso deve ser laica. Dizer que deus criou o mundo já faz parte de pensamento religioso, baseado na fé. A ciência, porque não se basta na fé cega (com perdão do pleonasmo), demonstra e prova (âmbito do público) que foi o homem quem criou deus e deuses. Isso não impede que você acredite em sua existência e eu não tenho direito de contestar, no domínio da crença, da religião, que é privada. Mas no domínio do público, do universal, da verdade, do direito de todos à ciência e ao conhecimento do mundo como ele é, tenho sim o direito (e o dever) de impedir que a religião obste o saber como tem feito milenarmente. Ensino religioso na escola pública é violação do princípio republicano, é crime contra a democracia, e contra a emancipação histórica do homem.

Recomendação da leitura:

HITCHENS, Christopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. São Paulo: Globo Livros, 2016.

Vitor Henrique Paro, 18/02/2020

Se notar alguma ideia ou tema que você considere mal abordado ou que exija maior explicação,
me comunique, por favor. Terei prazer em considerar sua observação.

Comentários

  • SIMONE Teixeira de Araújo
    SIMONE Teixeira de Araújo
    Responder

    Nota se que a fé nos ambientes escolares continuam sendo um desafio em que muitas escolas públicas o ensino religioso é garantido por lei e com isso as crianças podem ser expostas ao constrangimento ao se negarem entrar na sala de religião por isso nosso país não está ligado a neutralidade. Já que sequer há alternativas curriculares para quem se negar a participar dessas aulas. Simone Teixeira ..ra :1950421

    • Vitor Henrique Paro
      Vitor Henrique Paro
      Responder

      É isso, Simone. É, em grande parte, em virtude desse constrangimento que vivemos numa época de obscurantismo. Mas é preciso reagir, denunciar, protestar. Numa sociedade democrática, o Estado é laico. Obrigado por seu comentário. Um grande abraço.

  • ESCRITA PROTAGONISTA
    ESCRITA PROTAGONISTA
    Responder

    A escola pública brasileira é uma verdadeira escola COM PARTIDO. O partido dos ultraconservadores. É absurdamente precária em sua estrutura, oferece também condições de trabalho medíocres para seus profissionais e, propositalmente, o mínimo possível para seus estudantes. Contudo, cumpre bem a função de aparelho ideológico do Estado e a religião não está no currículo por acaso: ela é parte importante do poder disciplinador, do medo, da culpa, da consolação, da conformação e da promessa de felicidade depois da morte, já que é impossível ser feliz em vida quando se vive em condições miseráveis… Outro aspecto interessante é observarmos que o funcionamento da disciplina não segue, em muitos casos, uma vertente ecumênica, o ensino religioso é muito amadoramente conduzido e por isso também produz perigosas e restritas visões de religião que, como consequência, podem estimular nas crianças o crescimento das sementes da intolerância…

    Parabéns pelo pitaco, professor. Gosto muito da sua assertividade e do efetivo compromisso com os excluídos (a grande maioria dos jovens do país).

    • Vitor Henrique Paro
      Vitor Henrique Paro
      Responder

      É isso, Escrita Protagonista. Infelizmente, ainda estamos muito longe do sonho iluminista de um Estado laico, medida óbvia para o engrandecimento da humanidade. Obrigado pelas sábias ponderações.

  • Adriana Watanabe
    Adriana Watanabe
    Responder

    Infelizmente ainda temos que fazer enfrentamentos para trabalhar com este princípio laico na escola pública. Muitas pessoas argumentam que seguem o calendário oficial, como os feriados religiosos para comemora-los na escola, o que tem criado muitos desgastes. Não tem sido fácil!

    • Vitor Henrique Paro
      Vitor Henrique Paro
      Responder

      Na verdade, o enfrentamento é contra a dominação. Os dominadores não vivem sem a fé dos dominados, de modo a afastá-los do conhecimento da realidade injusta. Obrigado pelo comentário, Adriana.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *