Arquivo da categoria: Oferta e procura

A crença de que o valor de qualquer mercadoria depende tão somente da chamada lei da oferta e da procura é um dos casos mais extraordinários de ignorância coletiva que atinge vários bilhões de habitantes pelo mundo afora. Aceita-se isso com a mesma segurança inabalável com que durante milênios se acreditou que o Sol girava ao redor da Terra. Mas não é bem assim [Neba]. A melhor maneira de negar essa crença é procurar compreender de forma rigorosa o que, de fato, faz com que as coisas tenham valor econômico. Alerto, desde já, que esta não é uma empresa fácil, embora esteja ao alcance de qualquer inteligência mediana. Um esforço imprescindível a ser feito é o de renunciar à cômoda ingenuidade diante das aparências e de procurar ver com maior acuidade os fenômenos que nos cercam. Em nosso cotidiano, por exemplo, a oferta e a demanda que regem a subida e descida dos preços nos faz pensar que é aí que reside a origem do valor das mercadorias. O que a reflexão crítica nos faz ver, entretanto, é que, para haver essa oscilação, é mister que haja um valor inicial. O que é esse valor e o que o determina é o que cumpre esclarecer.

Podemos começar dizendo que toda riqueza na sociedade capitalista se apresenta sob a forma de mercadoria, que é o verdadeiro recipiente do valor. Por sua vez, toda mercadoria possui duas propriedades características: valor de uso e valor de troca. Valor de uso é a propriedade que a mercadoria tem de atender a necessidades humanas. O valor de uso de um lápis, por exemplo, é servir para escrever. Neste sentido, valor de uso pode ser considerado simplesmente sinônimo de utilidade. Apesar da presença dessa palavra “valor” na expressão, o valor de uso não é uma grandeza econômica. Toda mercadoria tem necessariamente valor de uso, mas não precisa ser mercadoria para ser portador de valor de uso. O ar que respiramos, por exemplo, tem um valor de uso (uma utilidade) enorme, mas não é mercadoria. O valor de uso representa, assim, uma relação subjetiva entre o homem (que valora) e uma coisa (que é valorada), não é, pois, uma relação social. Podemos também usar a expressão “valor de uso” como sinônimo de coisa útil ou a própria coisa útil em si: posso, por exemplo, me referir ao “valor de uso mesa” ou considerar “a mesa como valor de uso”.

O valor de troca, por sua vez, é a propriedade que a mercadoria tem de ser trocável por outra mercadoria. Dizemos, então, que a segunda é o valor de troca da primeira. Se 1 mesa troca-se por 4 garrafas de vinho, dizemos, então que 4 garrafas de vinho é o valor de troca de 1 mesa. Diferentemente do valor de uso, o valor de troca expressa uma relação social, pois a troca é uma relação entre possuidores de mercadorias de valores de uso diferentes. Observe que, quando dizemos que 1 mesa se troca por 4 garrafas de vinho, estamos utilizando o valor de uso de uma mercadoria (vinho) como valor de troca de outra (mesa). Ademais, assim como ocorre com a expressão “valor de uso”, também a expressão “valor de troca” pode designar tanto a propriedade de uma coisa quanto a própria coisa. Então, ao considerar o valor de troca da mesa, podemos também nos referir ao “valor de troca mesa” ou à “mesa como valor de troca”.

Obviamente, na vida prática moderna, não se usa trocar mesas por garrafas de vinho, porque contamos com o dinheiro para mediar essa transação, o que não acontecia historicamente antes do surgimento da moeda. Mesmo assim, continuaremos a utilizar esse recurso em nossos exemplos para facilitar a exposição. Não nos esquecendo que, para todos os efeitos, o próprio dinheiro é uma mercadoria, pois possui valor de uso (servir como meio de troca) e valor de troca (ser trocável por outras mercadorias).

Voltando a nosso exemplo, podemos inverter a operação e dizer que 1 garrafa de vinho se troca por 1/4 de mesa. Agora é o valor de uso mesa que exerce a função de valor de troca do vinho. Podemos continuar, expandindo o exemplo, e dizer que 1 mesa se troca por 20 quilos de batatas, ou por 2 gravatas, ou por 3 ingressos no teatro, ou por R$ 100,00, e assim por diante, porque sabemos que, nas devidas proporções, todas as mercadorias se trocam entre si. A mercadoria mesa não tem portanto um, mas infinitos valores de troca. Observamos, assim, que, diferentemente do valor de uso, que é uma qualidade intrínseca da mercadoria, o valor de troca de uma mesma mercadoria muda inúmeras vezes, de acordo com a outra mercadoria com a qual ela se relaciona.

Além disso, se uma mesa se troca por 20 quilos de batatas, e uma mesa se troca por 2 gravatas, conclui-se que 20 quilos de batatas se trocam por 2 gravatas, podendo esse raciocínio aplicar-se generalizadamente para o conjunto infinito de valores de troca de uma mesma mercadoria e dizer que todos eles são trocáveis entre si nas respectivas proporções. Vemos, assim, que os valores de troca de uma mesma mercadoria expressam, todos, o mesmo significado. Logo, nas diferentes mercadorias há algo em comum, cuja grandeza é expressa no valor de troca. A esse algo em comum chamamos de valor. O valor de troca só pode ser, portanto, a maneira de expressar-se de algo que dele se distingue e que é homogêneo em todas as mercadorias. O valor de troca, nada mais é, portanto, que a expressão do valor.

É preciso insistir nessa diferença entre valor de troca e valor. Não são a mesma coisa, como acreditam alguns intelectuais “marxistas” que, pelo visto, não leram com atenção sequer o primeiro capítulo de O capital, de Marx. O valor de troca é uma mercadoria concreta, utilizada para expressar o valor contido em outra mercadoria; o valor é uma categoria abstrata, produto de complexas relações sociais, como veremos a seguir, por isso “é invisível aos olhos” e só pode vir à luz na forma do valor de troca. Uma mercadoria pode ter infinitos valores de troca, mas um só valor, que é expresso por cada um desses valores de troca. A ignorância desses conceitos ou a má compreensão da diferença entre ambos pode favorecer a crença na falácia liberal de que é a razão entre oferta e procura que dá origem ao valor. Quando, por exemplo, acontece de o valor de troca de determinado bem ou serviço variar significativamente como resultado de especulações pontuais (disparidade entre oferta e procura), isso não significa que, em termos sociais globais, seu valor seja necessariamente afetado.

Nosso raciocínio até aqui levou-nos à constatação de que o valor é: a) comum a todas as mercadorias, e b) homogêneo, “igual”, em todas elas, a ponto de permitir que sejam trocadas entre si, de acordo com sua equivalência. Agora, por mais que examinemos e lancemos mão de todos os mecanismos possíveis de investigação científica, verificaremos que a única coisa que existe de comum em absolutamente todas as mercadorias é o fato de serem produtos do trabalho humano. Só pode ser, portanto, o trabalho o que produz o valor. Falta, certamente, examinar a real homogeneidade desse trabalho, pois, à primeira vista, parece que não existe. Examino essa questão no pitaco sobre o trabalho abstrato.

Mas, desde já, não há como negar: a oferta e a procura fazem variar o preço da mercadoria, mas quem produz seu valor é o trabalho. Revela-se, assim, a tremenda injustiça do capitalismo: quem constrói o mundo e sua riqueza, com seu esforço – e empenho da própria vida –, é dominado pelos que possuem a propriedade privada dos meios de produção e nada fazem a não ser viver à custa da exploração do outro. Essa é a verdade insofismável, que paira acima de qualquer ideologia. Levada na devida conta, mudaria o mundo.

Vitor Henrique Paro, 18/01/2020

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