Aquilo que eu chamo de ideologia do não, articulado com o limitado discurso dos limites, estão, sem dúvida nenhuma, na base da argumentação daqueles que não se revoltam contra a criminosa militarização das escolas públicas pelos governos obscurantistas de plantão. Tentando jogar luz nessa discussão e contribuir para a compreensão da atrocidade pedagógica e humanitária que cometem, este Scanner reproduz um pedacinho de meu livro mais recente, Professor: artesão ou operário?

A ideologia do “não”

Essa espécie de desencanto com a função docente devido à resistência dos estudantes em esforçar-se por aprender e atender a determinações dos adultos tem feito com que muitos professores e professoras acabem aderindo às razões do senso comum para propor modos autoritários de ensinar. Todavia, no senso comum se faz um diagnóstico equivocado sobre as razões por que as crianças e jovens das escolas de ensino básico apresentam comportamentos ditos “antissociais”. A alegação comum é a de que os adultos deveriam dizer mais “Não!” às crianças, que se comportam de forma errada por culpa da liberalidade com que foram educadas, sem jamais receberem um “não” dos adultos. O grave é que parece haver certo consenso a esse respeito, tanto entre professores e educadores escolares em geral, quanto entre pais e responsáveis pelos jovens na família e na sociedade, a tal ponto que a criança já chega à escola vítima da ideologia do “não” e os próprios pais e mães cobram dos professores tal conduta ideológica. Além disso, incomoda profundamente notar que os discursos sobre o “não” dos autointitulados progressistas se encaixam perfeitamente na opinião sobre o mesmo tema dos mais exacerbados conservadores e autoritários que costumam infestar nossa mídia. Não acredito absolutamente que os comportamentos antissociais de “rebeldia”, de desobediência e de desrespeito para com o outro, por parte de crianças e jovens advenham do simples fato de os pais e educadores não terem dito “não” a seus filhos e alunos quando crianças. Até porque, em minha (já relativamente) longa vida de pai, de avô, de educador profissional, de pesquisador em escolas públicas, raramente encontro esses tais adultos que não dizem “não”. Pelo contrário, o que vejo em abundância, no dia a dia e nas pesquisas empíricas que realizo, são pessoas dizendo “não” às crianças nas mais variadas ocasiões. Raríssimas vezes vejo adultos procurando afirmar a personalidade de seus filhos e estudantes, dizendo um “sim” sincero e emancipador. Onde estão essas pessoas que supostamente produzem crianças desajustadas por serem democráticas com elas? Trata-se de um assunto delicado porque o simples fato de contrariar os vários sujeitos que lidam com educação e ensino a respeito desse ponto de vista já parece suficiente para esses se sentirem ofendidos e se voltarem ainda mais contra toda argumentação democrática a respeito da relação pedagógica. Essa indignação tem razão de ser e me parece plenamente compreensível. A razão central é que tais educadores estão diante de um fenômeno que é real: de fato, é frequente a existência de crianças e adolescentes que desobedecem às ordens mais razoáveis, que tratam rispidamente e desrespeitam os mais velhos e os próprios colegas, com uso de palavrões, ofensas e até com violência. Tudo isso emoldurado por uma forte recusa em dedicar-se ao estudo ou a qualquer trabalho escolar.

E não se trata apenas da saudável rebeldia própria da juventude que todos nós tivemos e da qual nos damos ao luxo de nos orgulhar. (Embora mesmo aqui haja incompreensões, elas se restringem muito mais aos conservadores de todas as épocas que têm ojeriza ao avanço social e ético.) Não é desse tipo de conduta que estou falando aqui, mas daqueles comportamentos acintosos e inconvenientes que tiram a paciência das pessoas mais progressistas, tolerantes e bem-intencionadas e que as fazem propor medidas que, ao fim e ao cabo, pouco diferem das “soluções” autoritárias dos conservadores. Tenho conversado com professores e pais bem-intencionados que se sentem perdidos diante dessa situação porque não conseguem dialogar com seus educandos. E quando o diálogo não dá resultado, a dedução natural parece ser a de que se deve lançar mão da solução contrária, o autoritarismo. É, portanto, plenamente compreensível esse impulso “natural” a propor ou aceitar medidas que acabam por negar a subjetividade do educando, mesmo que esta negação não seja intencional e mesmo que disso não se tenha a mínima consciência. Mas não se deve aceitar como certa alguma coisa que é inteiramente contra a boa prática pedagógica. O fato de haver essa espécie de consenso em favor dessa atitude negativista não significa de modo nenhum que esta seja a conduta correta, nem significa que ela tenha fundamento científico. A esse respeito, o que nos deve chamar a atenção, logo de início, é a semelhança da argumentação dessas pessoas bem-intencionadas com a da direita raivosa que vive a pregar medidas repressivas e coibidoras da autonomia dos educandos em todas as instâncias sociais, políticas e religiosas e por meio de todos os meios de comunicação de massa. Não importa se o discurso vem envolto numa aura de bom senso, com a alegação de que tudo deve ter limites, e que, portanto, é preciso pôr (ou impor) limites à liberdade da criança. “Afinal a criança deve saber desde já que nem tudo é permitido ou possível.” “Liberdade sim, libertinagem não.” “É preciso ter a medida das coisas.”

“Limites”: um discurso muito limitado

O discurso dos “limites” no campo conservador procura apenas encobrir a intenção de negar a autonomia do outro e acaba se tornando uma praga moralista que já infesta até a academia, mas que não tem nenhuma base de natureza científico-pedagógica. A autoridade arrogada é quase sempre a própria experiência pessoal. Pessoas autoritárias se gabam em dizer que foram reprimidas quando crianças e que, por isso, são bem-comportadas como adultos. É o caso de se retrucar: “Ora, o fato de você ter sido reprimido não lhe confere autoridade nenhuma para falar de democracia, muito menos de pedagogia.” Não deixa de ser estranho, para não dizer melancólico, que, após todo o progresso científico e político verificado na teoria e na prática pedagógicas em toda a história da humanidade, em especial, nos últimos cem anos, ainda tenhamos de suportar a grande “sabedoria” de empreendedores, consultores, administradores de empresas, jornalistas, economistas, estatísticos, padres, pastores, curiosos e charlatães de autoajuda de toda sorte, com a pretensão de terem a solução, com base em sua experiência pessoal; e de aceitar passivamente a mesma maldita solução que no decorrer dos milênios sempre significou a desgraça do gênero humano, ou seja, a repressão, a negação do outro.

PARO, Vitor Henrique. Professor: artesão ou operário? São Paulo: Cortez, 2018. p. 43-46.

Vitor Henrique Paro, 09/03/2020

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Comentários

  • Clarissa Castilho
    Clarissa Castilho
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    Excelente texto! Vem a calhar nesse momento de ascensão do discurso do autoritarismo e do senso comum como base de decisões para nossas vidas e educação escolar. Parabéns, professor Vitor! E obrigada.

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