“A Primeira Tentação de Cristo”, especial de Natal de 2019 do grupo Porta dos Fundos, suscitou a ira de cristãos e outros religiosos, que vociferaram quanto à necessidade de censurar a peça artística por não aceitarem uma visão de Jesus diversa da que foi implantada pelos cristãos desde os inícios da Era Comum. Houve muita polêmica e, felizmente, muita gente lúcida criticando essa tentativa de censura dos cristãos que se acharam ofendidos. Em meu perfil no Facebook, tive que justificar minha posição contrária à censura, argumentando, às vezes com certa irritação, contra pessoas que se dizem educadoras e não percebem que defendem o obscurantismo.

Em certa ocasião afirmei que, em tudo isso, o que mais deveria chamar a atenção é essa petulância de certos cristãos de se acharem proprietários de uma figura histórica como Cristo. Cristo existiu, foi um personagem histórico, como um César, um Napoleão ou um Nero. Não é propriedade de ninguém. Pode ser objeto de crítica, de humor, de sátira, e, no contexto do humor, pode ter inclusive sua figura falseada e avacalhada, sim senhor. E quem estudar um pouquinho sobre o Cristo histórico (não as mentiras do Novo Testamento), verá que o Jesus Cristo inventado pelas seitas cristãs, em especial a Igreja Católica, é uma mentira infinitamente maior e mais grosseira do que o que aparece no especial de Natal do Porta dos Fundos. Essa versão, no correr dos séculos, tem servido para justificar incontáveis atrocidades contra a vida e os direitos das pessoas, não apenas contra o bom gosto, como reclamam alguns críticos do especial de Natal. No Brasil, tem servido inclusive para legitimar um presidente da república que coloca “deus acima de todos” e governa pautando-se no facinoroso deus bíblico, que manda matar e exterminar os inimigos do “povo eleito”. Nada disso pode servir de pretexto para a intolerância e o desrespeito da liberdade de pensamento.

Recomendação de leitura

Bart D. Ehrman tem várias obras excelentes sobre o Jesus histórico. Recomendo, para começar:

EHRMAN, Bart D. Como Jesus se tornou Deus. São Paulo: LeYa, 2014.

Vitor Paro, 16/02/2020

Se notar alguma ideia ou tema que você considera mal abordado ou que exija maior explicação,
me comunique, por favor. Terei prazer em considerar sua observação.

Comentários

  • Antonio Netto
    Antonio Netto
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    Excelente texto. Bem pedagógico.

  • Clarissa Castilho
    Clarissa Castilho
    Responder

    Bem colocado! Lembtou-me meu pai ateu e comunista, fervoroso crítico da Igreja, que nunca se absteve de falar de Jesus, mas sempre nos fazendo olhar o homem, a figura histórica, como o professor aponta. Faz toda a diferença !

  • Adriana Watanabe
    Adriana Watanabe
    Responder

    Concordo! Os dogmas religiosos têm trazido, ao longo dos anos, alienação as pessoas comuns que se negam a pensar em fatos históricos, como por exemplo a vida de Jesus Cristo.

    • Vitor Henrique Paro
      Vitor Henrique Paro
      Responder

      É isso, Adriana. Um dos maiores males da religião é oferecer um sucedâneo falso de ciência, dificultando, assim, o acesso ao saber. Um abraço.

  • Marília Borin
    Marília Borin
    Responder

    Excelente texto que suscita a reflexão a acerca do modo como Jesus é visto como uma figura mítica a ponto de um determinado grupo que compartilha dessa ideia construída não aceite, nem mesmo a suscitação do humor e/ou da crítica. Trazer à tona a reflexão do resgate de Jesus histórico é vital, como bem aponta, que coloca em cheque narrativas obscurantistas e constituídas a partir de interesses pré-determinados advindos, sobretudo, da esfera política, conforme, infelizmente, contemplamos em nosso país. Porém, desconstruir o discurso que constituiu a figura desse “Cristo inventado” por seitas é também uma árdua tarefa de uma ação educativa comprometida com o respeito, a tolerância e a justiça em um estado que pressupõe a laicidade e a democracia.
    Ótima dica de leitura
    Um forte abraço.

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